segunda-feira, 17 de setembro de 2007

000, Noite.

Depois de tantos anos escrevendo, já não há como dizer o que me leva a isso. Escrevo porque escrevo, sem maiores questionamentos de minha parte, sem me considerar uma escritora, sem saber por quais caminhos a palavra me levará. Gosto desse jogo de letras, linhas e pontos, sem preocupações. Retratando o sentir, o pensar, brinco com aquilo que está no interior individual, e, ao mesmo tempo, coletivo - tempo e espaço só são importantes a partir do momento em que podem interferir diretamente neste campo.

Não gosto do que dizem de mim os críticos, não creio que eu seja como me descrevem. O que há em minhas páginas digno de admiração por ultrapassar infinitamente a média é o egocentrismo estático. Há décadas não escrevo nada original, apenas seguindo o mesmo padrão de quando comecei, a mesma receita. Por isso gosto tanto de D. Darlington, a cada obra surpreendendo com algo novo, inevitável não louvá-lo. O convite para virar estátua no Madame Tussauds lhe chegou em boa hora, terá para todo sempre um corpo fixo, moldado com afinco por aqueles que o julgam, será eternamente admirado por qualquer um que o veja, e então, seu outro eu, o verdadeiro, livre da ansiedade pela aceitação, poderá, mais que nunca, transmutar-se incansavelmente até chegar a si mesmo. Causa-me arrepios imaginar o que está por vir.

Também gostaria de poder ser duas e creio que em determinados momentos até possa ser, mas, por enquanto, é como se ambas fossem de cera. Fico encantada com a liberdade da criação, mas não me considero uma criadora, o que faço nada mais é que uma releitura de tudo o que possa estar vendo. Sempre de acordo com reflexivas observações que permitem que eu possa imaginar situações e falas, logo registradas, é como se cada texto fosse uma autobiografia. Não que tenha acontecido comigo o que lá está escrito, o que há de fato é o que tocou, mesmo de leve, o meu pensamento naquele instante e pôde ser a fagulha da concepção do novo. Chego a desenvolver inúmeros parágrafos por ter tido contato com apenas uma linha, um momento, uma nota, uma emoção.

As palavras, porém, mais que uma diversão, são minha vida. Logo, sinto-me honrada e, mesmo grata, cabe-me recusar este troféu. Busquem, para que esta premiação não perca o respeito e a admiração conseguidos com tanto esforço, os realmente melhores, os não-escravos da autocrítica e por isso livres para serem avaliados e, em seguida, apreciados. Estes sim merecem toda a admiração.

Sinceramente,

Milena K.

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