domingo, 23 de setembro de 2007

005, Tarde.

Era um daqueles bairros de imigrantes japoneses, dia de comemoração, o cheiro da comida viajava longe e a música inspirava dança. A multidão passando na rua principal, entre as lojas e barracas, pessoas vestidas a caráter, crianças brincando com seus peixinhos recém capturados, casais observando os fogos de artifício. Ele estava ali, andando distraidamente tentando não lembrar daquilo que o perturbava tanto, mas era impossível. Tentar desesperadamente esquecer significava lembrar a cada instante.

Naquela esquina pôde sentir aquele agradável aroma de incenso e quis saber de onde vinha. Entrou por uma estreita rua escura e já não sabia dizer onde estava, cada vez mais próximo de onde quer que fosse chegar. A música era agora distante, assim como o som das vozes, dos risos. Andou até notar dois objetos luminosos no meio da escuridão. Eram duas lanternas chinesas na porta de um pequeno restaurante espremido entre as casas pequenas e escuras daquele local. Por entre as sombras pôde notar pessoas chegando de diversos lugares que não sabia identificar. Aproximou-se mais e foi então que notou, entre os clientes que chegavam, sua amiga Adriana. Ela também pareceu notá-lo, acenou e sorriu. Ele retribuiu, não a via desde o dia em que ela suicidara-se, quatro anos antes.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

004, Noite.

Querido Diário,

Hoje estou muito cansado para dizer qualquer coisa que não seja clichê. O dia foi bastante inspirador, porém não disponho de forças para escrever o que eu gostaria. E bem, não adianta contar o que eu imaginei, é perca de tempo, afinal é como sempre dizem as mães daqui de Palmas aos seus filhinhos que querem um McLanche Feliz: “querer não é poder”.

E refletindo sobre esta sábia máxima, me despeço e vou dormir.

Até a próxima!

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

003, Noite.

- Casar? Mas vai estragar a vida muito jovem!
- Digno de música sertaneja!

- Há quanto tempo não nos vemos?

- Aceita?
- Não, obrigado!

- Tudo bem, eu pego para você!

- Pinça, pra que?
- Descobri meu lado psicopata.

- A reunião é amanhã, as 10:30h.

- Vamos comprar chiclete!
- Ta, só vou pegar meu celular!

- Isso, madame, é Versailles!

terça-feira, 18 de setembro de 2007

002, Manhã.

É que no decorrer de nossas vidas, vamos aprendendo a domar nossas vontades e atitudes. Conseguimos, em diversos aspectos, controlar a fome, a sede, o choro, o riso, a raiva, os pensamentos, as expressões, as paixões, o desejo. Assim nos tornamos seres humanos superiores, mesmo isso não sendo sinônimo de felicidade. Aliás, na busca por esse tal comportamento superior, a própria felicidade deixa de ser objetivo e acaba por ser, também, domada. Já não sei onde entra o amor, próprio ou relativo.

Até porque tudo anda bastante confuso e eu já nem me reconheço mais. Dias inteiros sem conseguir me concentrar em nada a não ser nas lembranças dos nossos momentos juntos. E, se por um lado as memórias me deixam feliz, os fragmentos da realidade me deixam sem saber como lidar com a situação. A ambigüidade de seus atos não me permite ter uma idéia clara do que de fato há e, sempre que eu tenho alguma noção superficial, eu a faço desaparecer por não me agradar por completo.

Essa é uma atitude que não consegui domar, afinal não sou um ser humano superior, nem feliz. Ainda.

001, Noite.

Concentrado naquilo que escrevia, sentiu o calor daquelas mãos tocando rapidamente os seus ombros “vamos lá fora?”. Sabia que ele não recusaria, não estava sendo questionado, afinal isso sempre foi mais como “eu estou saindo, vou beber água, você sai logo depois de mim”, ao que sempre respondia “certo”. Não que algo devesse estar correto ou errado, era apenas a expressão que correspondia ao “tudo bem, pode ir, assim que você passar pela porta eu te sigo”. E, logo depois, ele foi.

Era noite e lá fora o vento vindo do lago balançava a copa das árvores. O campus assemelhava-se a uma grande praça, mesmo sem os banquinhos, e às vezes nem parecia ficar dentro da cidade. Em pé, próximo a uma das entradas do bloco onde estudavam, começaram a conversar enquanto os ponteiros do relógio seguiam adiante em sua marcha.

Um deu um trago enquanto o outro observava quieto a fumaça, acompanhava com os olhos e a mente aquela dança curva e fluida em direção ao infinito. Nunca tinha notado o quão bonito podia ser aquilo numa noite cheia de estrelas, estar ali e poder percebê-lo o deixou mais contente. Aquela pequena mão e seus dedos curtos segurando aquele cigarro o faziam distante daquilo que estava sendo conversado naquele momento, ao mesmo tempo em que a proximidade daqueles dois nunca houvera sido tão grande.

A lua, tal qual o Gato de Cheshire, sorria em sua loucura contemplando a desordem presente na mente deles.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

000, Noite.

Depois de tantos anos escrevendo, já não há como dizer o que me leva a isso. Escrevo porque escrevo, sem maiores questionamentos de minha parte, sem me considerar uma escritora, sem saber por quais caminhos a palavra me levará. Gosto desse jogo de letras, linhas e pontos, sem preocupações. Retratando o sentir, o pensar, brinco com aquilo que está no interior individual, e, ao mesmo tempo, coletivo - tempo e espaço só são importantes a partir do momento em que podem interferir diretamente neste campo.

Não gosto do que dizem de mim os críticos, não creio que eu seja como me descrevem. O que há em minhas páginas digno de admiração por ultrapassar infinitamente a média é o egocentrismo estático. Há décadas não escrevo nada original, apenas seguindo o mesmo padrão de quando comecei, a mesma receita. Por isso gosto tanto de D. Darlington, a cada obra surpreendendo com algo novo, inevitável não louvá-lo. O convite para virar estátua no Madame Tussauds lhe chegou em boa hora, terá para todo sempre um corpo fixo, moldado com afinco por aqueles que o julgam, será eternamente admirado por qualquer um que o veja, e então, seu outro eu, o verdadeiro, livre da ansiedade pela aceitação, poderá, mais que nunca, transmutar-se incansavelmente até chegar a si mesmo. Causa-me arrepios imaginar o que está por vir.

Também gostaria de poder ser duas e creio que em determinados momentos até possa ser, mas, por enquanto, é como se ambas fossem de cera. Fico encantada com a liberdade da criação, mas não me considero uma criadora, o que faço nada mais é que uma releitura de tudo o que possa estar vendo. Sempre de acordo com reflexivas observações que permitem que eu possa imaginar situações e falas, logo registradas, é como se cada texto fosse uma autobiografia. Não que tenha acontecido comigo o que lá está escrito, o que há de fato é o que tocou, mesmo de leve, o meu pensamento naquele instante e pôde ser a fagulha da concepção do novo. Chego a desenvolver inúmeros parágrafos por ter tido contato com apenas uma linha, um momento, uma nota, uma emoção.

As palavras, porém, mais que uma diversão, são minha vida. Logo, sinto-me honrada e, mesmo grata, cabe-me recusar este troféu. Busquem, para que esta premiação não perca o respeito e a admiração conseguidos com tanto esforço, os realmente melhores, os não-escravos da autocrítica e por isso livres para serem avaliados e, em seguida, apreciados. Estes sim merecem toda a admiração.

Sinceramente,

Milena K.